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O governo acabou - Otávio Sá Leitão

Aquilo que sindicalistas tentam há décadas, os movimentos sociais vivem ameaçando fazer e os manifestantes que tomaram as ruas brasileiras em diversas ocasiões desde junho de 2013 até chegaram a ensaiar, quem conseguiu de verdade foram os caminhoneiros: pararam o Brasil. Não precisaram de lideranças carismáticas, de apoio político, de financiamento público nem de grande preparação. 

 

Organizaram-se por whatsapp, ganharam apoio popular, multiplicaram-se rapidamente. Somavam 521 pontos de piquetes, de Norte a Sul, no final da tarde de quinta-feira. Impactaram, diretamente, a vida dos mais de 200 milhões de brasileiros. Paralisaram todo o setor produtivo. Estão prestes a deixar todo mundo a pé, com carros parados nas garagens sem uma gota de combustível para impulsioná-los. Mostraram que têm força na mesma proporção em que deixaram absolutamente claro que o governo de Michel Temer não reúne mais força nenhuma.

 

Em tudo, a atuação do governo federal foi desastrosa. Para começar, pelo mais óbvio. Até onde é possível deduzir, O GSI (Gabinete de Segurança Institucional) e a Abin (Agência Brasileira de Inteligência) não tinham a menor ideia do que estava por vir. Ninguém ligado aos mais altos escalões do governo parece ter tido a mais remota noção de que um tsunami estava a caminho. Não houve nenhuma medida preventiva.

 

Durante o curso da paralisação, que ganhava corpo e densidade a cada dia, mais bobagens. O governo demorou a entender a necessidade de estabelecer um canal de negociação e, quando o fez, errou na escolha dos interlocutores, da estratégia e da execução. Na quinta-feira, Michel Temer escalou seu “núcleo duro”, os ministros que detém mais poder e gozam de sua mais estrita confiança, para tratar com os representantes dos grevistas. 

 

Foram sete horas de reunião. O governo cedeu sem esboçar mínima resistência. Fizeram 12 concessões aos grevistas, do corte de impostos a subsídio, sem exigir qualquer contrapartida. Nem mesmo a mais elementar, que seria condicionar o acordo à liberação das rodovias. Passava das 22h quando Eliseu Padilha, ministro-chefe da Casa Civil, anunciou em entrevista coletiva que a greve acabara. Orgulhoso, avisou que a liberação das rodovias começaria “imediatamente”.

 

“O senhor já combinou com os russos?”, perguntaria o craque Garrincha, que notabilizou a expressão ao ironizar as instruções do técnico da seleção brasileira de 1958, Vicente Feola, sobre como penetrar na defesa da equipe adversária. O governo Temer parece ter fechado o acordo com todo mundo - menos, com os caminhoneiros. Na madrugada de sexta, não houve um único piquete que tenha sido desmobilizado.

 

Nas horas seguintes, mais equívocos, outro show de amadorismo. O presidente Michel Temer, até então desaparecido, anunciou que editaria um decreto de GLO (Garantia da Lei e da Ordem) para liberar as estradas. Autorizou o uso das forças federais de segurança (leia-se, Exército). Irritou ainda mais os já irritadíssimos caminhoneiros. Na sequência, o Ministro da Segurança Pública, Raul Jungmann, disse em entrevista que “informações” do governo sinalizavam a liberação de 45% dos pontos de piquetes. O ministro deve ter sido vítima de fake news, mal súbito ou boicote interno. Porque na noite de sexta, a única coisa liberada eram os frentistas dos postos de combustíveis de todo o país, sem ter o que fazer diante de bombas vazias e uma horda de motoristas desesperados por uma gota de álcool ou gasolina. As estradas continuavam bloqueadas do mesmo jeito.

 

Até a madrugada deste sábado, ninguém sabia o que esperar. Além da incompetência do governo em lidar com um problema tão sério, a única coisa certa é que o país parou. Mais de 10 aeroportos estão sem operar por falta de combustíveis. O transporte público funciona de forma precária. Alimentos e produtos perecíveis apodrecem nas estradas. Leite é desperdiçado sem ter como ser transportado. O preço dos hortifrútis está nas nuvens. A batata anda valendo mais que ouro. Todas as montadoras do país estão paradas, sem peças. Os navios esperam cargas que não chegam aos portos. Shows foram cancelados. Cirurgias adiadas. E os carros que teimam em circular queimam, certamente, suas últimas gotas de combustível. Quando acabar o que tem no tanque, o jeito será encostar o veículo. E esperar o fim da greve.

 

Por mais legítimo que seja o desejo – dos caminhoneiros e, de resto, de todos os brasileiros - de ver o preço dos combustíveis baixar, é impossível negar o fato de que a questão é complicadíssima. Não se pode simplesmente determinar o preço por canetada, fórmula que levou a Venezuela ao colapso e que, por aqui, quase destruiu a Petrobras. Além disso, é imperativo admitir que o dólar em disparada e o preço do barril do petróleo no mercado internacional nas alturas, somados a uma carga tributária elevada e à ganância desmedida de alguns donos de postos, compõem a fórmula perfeita para levar o preço dos combustíveis à estratosfera. 

 

Muita coisa precisa ser feita. Rever a política de preço dos combustíveis, discutindo com a sociedade, inclusive, se e de quanto seria eventual subsídio da Petrobras, é medida urgente e necessária. Ainda assim, terá que esperar. 

 

Pelo que se viu durante o protesto dos caminhoneiros, o governo Temer mal se sustenta de pé. Não é respeitado por ninguém, seus interlocutores não são levados a sério por quem quer que seja, as suas propostas não reúnem mínima credibilidade. Qualquer solução efetiva para o preço dos combustíveis – e de resto, para o país – só virá quando as urnas legitimarem um novo presidente. Até que outubro chegue, o jeito é torcer pelo menos pior. Temer já é passado. Sua história não vai deixar saudades. Legado, não haverá nenhum. Que termine rápido, e sem desastres adicionais além da greve dos caminhoneiros. É o melhor cenário possível.

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