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ANÁLISE: com o desabastecimento, dá para comparar a situação do Brasil à da Venezuela?

ANÁLISE: com o desabastecimento, dá para comparar a situação do Brasil à da Venezuela? - Otávio Sá Leitão

Filas quilométricas nos postos de gasolina e prateleiras de feiras e supermercados vazias são imagens do Plano Cruzado, no governo Sarney, que os brasileiros apagaram da memória e habituaram-se a associar à realidade da Venezuela. Essa combinação de desabastecimento, hiperinflação e desnutrição forçou, nos últimos anos, o êxodo de 50 mil venezuelanos para território brasileiro.

Quando o nosso combustível acabou e diferentes tipos de produtos começaram a ficar escassos, a comparação foi automática, em filas de supermercados, em declarações indignadas de políticos, em memes nas redes sociais. Mas, afinal, além de prateleiras vazias, o que há de Venezuela na crise de abastecimento do Brasil? Pouca coisa, asseguram analistas brasileiros familiarizados com a situação venezuelana.

Até a palavra caos soa diferente nos dois países -- temporário, para o Brasil; crônico e absoluto, para a Venezuela. Aqui, o desequilíbrio econômico é momentâneo; lá, estrutural.

Professor de relações internacionais da Fundação Getúlio Vargas, o pesquisador Oliver Stuenkel diz que o paralelo é injusto com os venezuelanos, “chega a ser irresponsável e subestima o sofrimento diário da população”.

No país de Nicolás Maduro, que controla forças armadas, Judiciário e Legislativo, a escassez é sistêmica, fruto do colapso produtivo, da inflação estimada em 14.000% em 2018, da incapacidade de importação e da inoperância do governo.

 

Área de açougue de um supermercado em Caracas, em janeiro: escassez de produtos no país jé é crônica (Foto: Marco Bello/Reuters)

Área de açougue de um supermercado em Caracas, em janeiro: escassez de produtos no país jé é crônica (Foto: Marco Bello/Reuters)

“Suas dimensões são incomparáveis ao que vivemos aqui nos últimos dias. O Brasil tem apenas um desafio logístico, com poucos dias de desconforto. Já a Venezuela levará décadas para se recuperar”, atesta Stuenkel.

Nem na avaliação mais pessimista do cientista político Maurício Santoro, professor de relações internacionais da Uerj, o Brasil caminha na direção da Venezuela, país que reflete uma realidade catastrófica sem ter enfrentado guerras ou desastres naturais. Prova da fome e da escassez, venezuelanos perderam em média 11 quilos em 2017.

“Para o Brasil, a Venezuela funciona como um espelho sombrio, um lembrete da má gestão política, do que pode dar errado”, afirma Santoro.

Por outro lado, observa, o desabastecimento da última semana aproxima o brasileiro da realidade venezuelana, cria empatia a uma crise que se agravou desde 2014 no país vizinho.

“O desabastecimento ocorreu de forma muito rápida, surpreendeu os brasileiros e inflou um discurso eleitoreiro, calcado na raiva e na polarização ideológica”, avalia Santoro.

Professor de energia e mmbiente da USP, o economista Edmilson Moutinho dos Santos diz que Brasil e Venezuela se assemelham e se diferenciam em suas penúrias e instabilidades. Desta forma, imagens de prateleiras vazias e aparente incapacidade de governança estimulam a comparação entre os dois países.

No seu entender, o Brasil deve recomeçar a rodar, após recompor a capacidade de negociação e amortizar o choque dos preços do petróleo, mesmo com um cenário instável. “A situação venezuelana é mais complexa. Preços de petróleo mais altos alimentarão as máquinas de poder, de corrupção, de autoritarismo e de ineficiência”, avalia.

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