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FÁTIMA E LINGUAGEM DO IMIGRANTE. Confira aqui!

Dei a maior sorte. Fátima é um filme que vale a pena ver.

FÁTIMA E LINGUAGEM DO IMIGRANTE. Confira aqui!

Hoje assisti ao filme Fátima. Fui sem nem saber do que se tratava e cheguei a perguntar na bilheteria se se tratava de uma película sobre Nossa Senhora de Fátima. É que eu não tenho muita paciência para religiões, então já queria saber logo. Não era. Peguei o filme que se encaixava no horário que eu queria e entrei.

Não há nada de deslumbrante, não há nada de épico, nenhuma cena que nos faça suar frio, criar aquela expectativa, nada que nos dê grandes sustos e que nos surpreenda tanto, mas tem uma angustiazinha, uma dor fina e uma força que nos prende por uma hora e meia sem dar sono.

Fátima é uma imigrante árabe, separada, com duas filhas jovens e todas moram em Paris. Fátima usa véu, é faxineira e dá muito duro pra bancar o curso de medicina da mais velha e a escola da mais nova que tem um misto de vergonha e pena da mãe, ainda que essa dó não fique evidente e é transoformada numa agressividade.

E é isso o que é legal no filme, o que não é evidente. Ele nos faz refletir sobre o que sublimamos em nós mesmos, sobre o sofrimento que não queremos ver do outro para que não atrapalhe a nossa vida, sobre sentimentos nossos que não conseguimos traduzir e terminamos por externá-los totalmente enviesados e descoordenados.

Fátima trata de sutilizas: a dor resignada de quem não venceu na vida, de quem sobrevive um dia após o outro, mas de quem não desaprendeu a sonhar, a projetar, a criar expectativas.

Alguém para quem todos os caminhos poderiam levar a autocomiseração, mas Fátima - sem conhecimento algum de si mesma e pouco conhecimento do mundo em que vive, já que nem a língua do país para o qual migrou ela aprendeu a falar - naturalmente transborda a fortaleza de quem vem sendo calejada pela vida há anos, desde sempre, como acontece com muitos de nós.