Apesar de odiarmos as ‘elites’, elas ajudaram a construir a democracia moderna. Confira!

Desde o Iluminismo, as elites têm ajudado a desenvolver o sistema que muitos eleitores parecem não valorizar hoje.

Apesar de odiarmos as ‘elites’, elas ajudaram a construir a democracia moderna. Confira!

"É tão fácil!", Trump dizia constantemente durante sua campanha eleitoral em 2016. E, de fato, sua particular ideia de democracia pode soar simples: o povo governa. Mas esse apelo populista tanto da esquerda quanto da direita levou a uma das eleições mais desestabilizadoras de nossa época.

Com as massas em protesto contra as "elites", chamando-as de muito intelectuais, muito neoliberais, muito cosmopolitas, muito o que quer que seja, candidatos como Donald Trump e Marine Le Pen se imbuem da autoridade do povo e se declaram os representantes dos 99%.

Mas a democracia moderna sempre foi conectada com os interesses dessas chamadas elites. Como o historiador americano Edmund S. Morgan escreve em seu livro Inventing the People (1989): "O pensamento sensato pode nos dizer que todos os governos são do povo, que todos professam ser para o povo e que nenhum pode literalmente ser pelo povo".

Quem é povo?

As tribos germânicas em suas florestas e os gregos em suas cidades-estado podem ter votado coletivamente em políticas públicas. Sendo poucos o suficiente para caber em uma praça pública, podiam processar seus problemas coletivamente.

Tais plebiscitos não são possíveis hoje. O número de pessoas é muito grande, e nossos problemas são muito complexos.

Isso constitui a democracia representativa, na qual os cidadãos elegem pessoas cujo trabalho é administrar diversos interesses, a mais eficaz forma de governo. Funciona não apesar de, mas por causa de restrições tais como a separação de poderes e freios e contrapesos.

Desde o Iluminismo, as elites têm ajudado a desenvolver o sistema que muitos eleitores parecem não valorizar hoje. As elites o desenvolveram por razões pragmáticas, políticas, idealistas e por autointeresse, buscando promover, instalar, defender e reformar ideias e práticas democráticas ou representar cidadãos em parlamentos.

Por volta de 1800, esta classe de pessoas começou a ganhar mais influência nos Estados Unidos e na Europa à medida que perceberam quão importante era para o estado conquistar o apoio dos cidadãos.

Depois de uma participação eleitoral de 5% em 1813, administradores franceses presumiram que ninguém seria contrário à abolição do direito ao voto. No início da história dos EUA, partidos políticos atraíam cidadãos relutantes às urnas com ameaças, dinheiro ou álcool.

No começo do século 19, no entanto, reformadores na Prússia e em outras regiões já estavam coordenando um esforço do topo para a base para promover o voto como um privilégio para "estimular o espírito público". Em revistas e folhetos, indivíduos letrados debatiam intensamente ideias de igualdade e participação, conclamando as pessoas a votar e alertando contra as demagogias.

Essas elites também demandaram a extensão do direito ao voto e a proteção das votações gratuitas. Ao longo do século 19, decretos municipais introduzidos em toda a Prússia acabaram por conceder o sufrágio para quase 3% da população (era uma parcela bastante alta para a época, equivalente aos 4% com direito ao voto nos EUA).

Sufrágio universal

No século 19, as eleições também serviram como uma ferramenta de governança. Cada voto era um censo em miniatura. Ao longo das décadas, aqueles que iam às urnas eram registrados, suas terras avaliadas e sua carga tributária definida. Os homens se tornaram cúmplices do aparelho estatal por meio do simples ato de votar.

A elite instruída, leitora de jornais, podia estar debatendo abstratamente o parlamento e o direito de codeterminação naquela época, mas a maioria das pessoas ainda sofria com problemas como a fome e a escassez.

Com a falta de recursos para cultivar ideais participativos, elas expressavam suas necessidades por meio de protestos, o que levou às revoluções de 1848 da Europa.

Napoleão III, imperador da França de 1852 a 1870, que era bastante especialista em relações públicas, percebeu que a joia da aprovação popular se encaixaria perfeitamente em sua coroa imperial. Então organizou eleições como um espetáculo, escolhendo a dedo candidatos e forçando seus súditos a votar neles.

Em 1990, mulheres em todo o mundo clamavam pelo direito ao voto, e a democracia ocidental estava rapidamente se tornando um assunto das massas.

As pessoas também eram mais instruídas e, em geral, tinham melhores condições do que há 50 anos, dando-lhes tempo e meios para ler jornais e se engajar em política. Isso, também, é parte da complexa história da democracia: sem educação e relativa prosperidade, é difícil exercer o voto eficazmente.

Harper's Weekly retrata uma ilusão: brancos e negros unidos em defesa do voto universal. Alfred R. Waud/Wikimedia

Eventos recentes como o referendo do Brexit e a vitória de Donald Trump demonstraram o apelo de um entendimento limitado e populista de democracia. A história conta que essa noção — a democracia como poder do povo sem um controle — é um mito. E no mundo moderno em expansão, agora é uma impossibilidade.

A democracia, quando funciona, sempre tem, em parte, um projeto da elite.

Gravura de Hermann Lüders sobre as eleições gerais da Alemanha em uma revista popular de 1833. German Journal, Fornecido pelo Autor

Por volta de 1870, os EUA, Alemanha e vários outros países promulgaram o sufrágio universal masculino. Novamente, a medida foi, em grande parte, impulsionada pelas elites interessadas em aprofundar a prática democrática.

Mas não era universalmente popular. Os EUA tinham acabado de finalizar a sangrenta guerra civil em 1867, quando seu governo ampliou o direito ao voto a todos os cidadãos homens. A maioria das pessoas brancas eram contrárias à medida, como confirmado em um referendo, mesmo no supostamente mais esclarecido norte do país.

Foi um bloco da elite dentro do Partido Republicano que pressionou pela obrigação militar para defender o voto de cidadãos negros no sul.

Como em outros esforços de emancipação impulsionados pela elite, as motivações eram mistas: um dos objetivos dos Republicanos era claramente a reeleição. Ainda assim, seus esforços ajudaram a iniciar o curto período de relativo empoderamento dos negros, conhecido como Reconstrução, entre 1865 e 1877.

Da mesma forma, os alemães precisam agradecer às suas elites o direito ao voto concedido em 1867. Otto von Bismarck, como outros estadistas de sua época, viu o sufrágio universal (masculino) como uma pedra angular de uma nação em construção e acreditava que um forte estado centralizado o ajudaria a aplicar as aspirações germânicas igualitárias para todos os cidadãos.

Os cidadãos, por sua vez, viam o voto como algo mais interessante porque os ajudaria a definir sua nação-estado e a estabelecê-los como iguais. O orgulho nacional fundacional motivou os homens a ir às urnas, pagar impostos e até mesmo morrer como soldados.

A coisa sobre as elites

Obviamente, as elites não agiram como um bloco unificado na ampliação dos direitos ao voto nos Estados Unidos e Alemanha, e muitos cidadãos da classe alta resistiram a essas mudanças.

Para os americanos, a raça sempre foi uma clivagem entre as pessoas brancas, independentemente da classe. Quando restrições ao voto maliciosas rapidamente afugentaram afro-americanos na década de 1890, sua introdução ocorreu, em grande parte, às elites que haviam abraçado o novo pensamento racista com vigor.

Alguns deles eram provavelmente as mesmas pessoas cultas liberais que ajudaram a introduzir urnas de votação e cédulas secretas que contribuíssem para o ideal de uma eleição livre e justa. O aprofundamento da democracia foi — e permanece sendo — um processo sinuoso e contraditório.

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