A Escravidão Moderna

A Escravidão Moderna
A servidão moderna é uma escravidão voluntária, aceita por essa multidão de escravos que se arrastam pela face da Terra. Eles mesmos compram as mercadorias que lhes escravizam cada vez mais. Eles mesmos correm atrás de um trabalho cada vez mais alienante, que lhes é dado generosamente se estão suficientemente domados, eles mesmos escolhem os amos a quem deverão servir.
Para que essa tragédia absurda possa ter sucedido, foi preciso tirar desta classe, a capacidade de se conscientizar sobre a exploração e a alienação do qual são vitimas. Eis então a estranha modernidade da época atual.
Ao contrário dos escravos da antiguidade, aos servos da idade média e aos operários das primeiras revoluções industriais, estamos hoje frente a uma classe totalmente escrava que, no entanto, não se dá conta disso ou pior ainda, que não quer enxergar. Eles não conhecem a rebelião, que deveria ser a única reação legitima dos explorados.
Aceitam sem discutir, a vida lamentável que foi planificada para eles, a renuncia e a resignação são a fonte de sua desgraça. Eis então o pesadelo dos escravos modernos que não pedem, realmente, o que deixou para traz, que só aspiram a deixar-se levar pela dança macabra do sistema de alienação.
À medida que o homem constrói seu mundo com a força do trabalho alienado, o cenário deste mundo se converte na prisão onde terão que viver. Um mundo sórdido, sem sabor, sem odor, que leva consigo a miséria do modo de produção dominante.
Este cenário esta em eterna construção. Nada é estável. A remodelação permanente do espaço que nos envolve se justifica pela amnésia generalizada e pela insegurança na qual devem viver seus habitantes. Trata-se de refazer tudo a imagem do sistema: o mundo se torna cada dia mais sujo e barulhento, como uma usina.
Cada parcela deste mundo é propriedade de um estado ou de um particular. Este roubo social que é a apropriação exclusiva do solo se encontra materializada na onipresença de muros, barreiras e fronteiras... São as marcas visíveis desta separação que invade tudo. Mas, ao mesmo tempo, a unificação do espaço de acordo com os interesses da cultura mercante é o grande objetivo da nossa triste época.
O mundo deve transformar-se em uma imensa autopista, racionalizada ao extremo, para facilitar o transporte das mercadorias. Todo obstáculo natural ou humano, deve ser destruído.
O ambiente onde se aglomera esta massa servil é o fácil reflexo de sua vida: se assemelha a jaulas, a prisões, a cavernas. Porem, contrariamente aos escravos e aos prisioneiros, o explorado dos tempos modernos deve pagar por sua jaula.
E é nesse lugar estreito e lúgubre, onde o escravo moderno acumula as novas mercadorias que deveriam, segundo as mensagens publicitárias onipresentes, trazer-lhe a felicidade e a plenitude. Porém, quanto mais acumula mercadorias, mais ele se afasta da oportunidade de ser feliz.
A mercadoria, ideológica por essência, despoja de seu trabalho aquele que a produz e despoja de sua vida aquele que a consome.
No sistema econômico dominante, já não é mais a demanda que condiciona a oferta, mas a oferta que determina a demanda. Então é assim que de maneira periódica, surgem novas necessidades que são rapidamente consideradas como vitais para a maioria da população: primeiro foi o rádio, depois o carro, a televisão, o computador e agora o telefone celular. Todas essas mercadorias distribuídas massivamente em um curto lapso de tempo modificam profundamente as relações humanas: servem por um lado para isolar os homens um pouco mais do seu semelhante e por outro a difundir as mensagens dominantes do sistema. As coisas que possuem acaba por possuir-nos. Porem, é quando se alimenta que o escravo moderno ilustra melhor o estado de decadência em que se encontra.
Dispondo de um tempo cada vez mais limitado para preparar a comida que ingurgita, ele se vê obrigado a engolir rápido o que a indústria agroquímica produz, errando pelos supermercados à procura dos ersatzes que a sociedade da falsa abundância consente em dar-lhes. Ai ainda, só lhe resta à ilusão da escolha.
A abundância dos produtos alimentícios apenas dissimula sua degradação e sua falsificação. Não são mais que organismos geneticamente modificados, uma mistura de colorantes e conservantes, de pesticidas, de hormônios e de outras tantas invenções da modernidade.
O prazer imediato é a regra do modo de alimentação dominante, também é a regra de todas as formas de consumo. E as conseqüências que ilustram esta forma de alimentação se vêem em todas as partes.
Mas a frente à indigência da maioria que o homem ocidental goza de sua posição e de seu consumismo frenético. Em vista disso, a miséria está em todos os lados onde reina a sociedade totalitária mercante. A escassez é o reverso da moeda da falsa abundância. E num sistema que promove a desigualdade como critério de progresso, mesmo se a produção agroquímica é suficiente para alimentar a totalidade da população mundial, a fome nunca deverá desaparecer.
A outra conseqüência da falsa abundância alimentícia é a generalização das usinas de concentração e de exterminação massiva e bárbara das espécies que servem de alimento aos escravos. Esta é a real essência a do modo de produção dominante.
A vida e a humanidade não resistem ante o desejo de proveito de certos indivíduos.
A espoliação dos recursos do planeta, a abundante produção de energia ou de mercadorias, o lixo e os resíduos do consumo ostentoso, hipotecam a possibilidade de sobrevivência de nossa Terra e das espécies que nela habitam. Porém, para deixar livre curso ao capitalismo selvagem, o crescimento econômico nunca deve parar. É preciso produzir, produzir e reproduzir mais ainda. E são os mesmos poluidores que se apresentam hoje como salvadores potenciais ao planeta.
Este imbecis da indústria do espetáculo patrocinados pelas empresas multinacionais tentam convencer-nos de que uma simples mudança em nossos hábitos seria suficiente para salvar o planeta de um desastre.
A criança é a primeira vitima destas imagens, pois se trata de sufocar a liberdade desde o berço.
É necessário torná-los estúpidos e tirar-lhes toda capacidade de reflexão e de crítica. Tudo isso se faz, evidentemente, com a cumplicidade desconcertante dos pais, que não buscam se quer resistir frente a força imponente de todos os meios modernos de comunicação.
Eles mesmos compram todas as mercadorias necessárias para escravizar sua progenitura. Desapropriam-se da educação de seus filhos e deixam que o sistema alienador e medíocre, se encarregue dela. Existem imagens para todas as idades e para todas as classes sociais. Os escravos modernos confundem essas imagens com cultura e, às vezes, com arte.
Recorrem-se aos instintos mais baixos para vender qualquer mercadoria. E, é a mulher duplamente escrava da sociedade atual, que paga o preço mais alto. Ela é apresentada como simples objeto de consumo.
A revolta foi também transformada em uma imagem que se vende para melhor destruir seu potencial subversivo. A imagem ainda é, até hoje, a forma de comunicação mais direta e mais eficaz: ela cria modelos, aliena as massas, menti e promove frustrações. Difunde-se a ideologia mercantil pela imagem, pois o objetivo continua sendo o mesmo: vender modelos de vida ou produtos, comportamentos ou mercadorias. Vender é o único que importa.
Estas pobres criaturas se divertem, mas esse divertimento só serve para distrair os mesmos do verdadeiro mal que lhes afeta. Deixaram que fizessem de suas vidas qualquer coisa e fingem sentirem-se orgulhosos por isso. Tentam transmitir uma satisfação, mas ninguém acredita. Não conseguem se quer enganar-se a si mesmos quando se deparam com o reflexo frio do espelho da vida. Assim, perdem tempo com estúpidos que lhes fazem rir e cantar, sonhar ou chorar.
Através do esporte midiatizado se representam o êxito e o fracasso, os esforços e as vitórias, que os escravos modernos deixaram de viver em seu cotidiano. Sua insatisfação lhe incita a viver por procuração frente ao aparelho de televisão.
Assim como os imperadores da Roma Antiga, comprovam a submissão do povo com pão e jogos. Hoje em dia é com diversões e consumo do vazio que se compra o silêncio dos escravos.

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