27/04/2010 14:26 - RIACHO DO CONSELHO
RIACHO DO CONSELHO
Hoje e agora chove.
Sinto o cheiro presente de um passado
que dorme,que move e me acolhe
bem dentro de mim.
Oh dor que não tem fim!.
Que me dá muito conselho,
me deixa ansioso de verdade
quando em busca da felicidade
corria os campos, os jardins
e as ruas da minha cidade,
assim como o bico do pião guerreiro
que fincava em outro adormecido,
a espera de um golpe certeiro.
Assim como o grito do leiteiro
que em cima do seu jumento
gritava e ganhava o seu sustento.
Como também os fregueses e feirantes
que ali chegavam radiantes,
com o brilho nos olhos naquela cidade,
assim como os meninos,naquela idade,
que em cima de uma árvore frondosa
ou embaixo da sua sombra preguiçosa,
ouviam e cantavam um refrão:
“ mamãe que vontade de comer goiaba,
ai que vontade de comer goiaba!”
Corria com o carrinho feito de folha – de - flandres
pelas longas calçadas da lateral de um colégio de freiras
que me ensinou as primeiras e últimas lições
ou pelas estradas de barros criadas nas esquinas nuas das ruas,
local próprio de bandeirinhas, pega-pega e de reuniões...
Corria à procura das águas limpas
do “Riacho do Conselho”,
qual nunca procurei saber o seu significado,
mas sempre lhe obedecia.Era seu afilhado.
Sabia que ele era encantado e delicado.
Sabia a hora certa de ir ao seu encontro.
Sabia pisar sobre as suas águas
e lá derramava todas as minhas futuras mágoas.
E ali as pedras estavam presentes
recebendo de presente meus pés descalços
que hoje não os vejo, não os sinto,
apenas sei que em meus sapatos os calço.
Lá via os peixinhos rindo e proseando
daquele único e maravilhoso instante.
Lá ia pescar a felicidade tão ofertada,
sem qualquer procura ou senha de entrada.
Só pagava um preço muito alto,
que era a sua efemeridade
e que só hoje descubro e procuro resgatá-la,
feito talo roliço de bananeira
que crava as siglas de um amor verdadeiro.
E lá meus olhos saltavam de alegria
quando pulavam dos galhos das oiticicas
que batiam palmas alegremente para mim,
e eu ia até o âmago daquele riacho
sem medo, sem começo e sem fim.
Era o encontro das águas desejadas
como os das minhas lágrimas hoje aqui guardadas
que agora as derramo e as chamo.
Era a chegada da chuva.
Era o cheiro da chuva.
Eram os pingos da chuva.
Era o canto dos pássaros anunciando o inverno.
Eram os ninhos caídos no chão.
Eram as cobras se arrastando
e as andorinhas voando sem direção.
Eram as galinhas, os porcos, as vacas e as crias
sem se preocuparem com os seus destinos,
assim como o meu e de outros meninos.
Era a ânsia de terminar as aulas
para cair nas águas rasas ou profundas
dos açudes que sangravam,
dos rios, barreira à barreira,
ou do próprio riacho que ali me esperava.
Era o toque do sino de uma igreja antiga
chamando todos para a novena
ou os gritos da pequena menina
que sofria o passado, o presente e o futuro.
Eram as gaiolas em cima do muro da usina
e em baixo o lixo, os calangos, as lagartixas,
os “ melões caetanos” e os carrapichos,
provas incontestáveis do nosso vagueio
Era o cheiro do “ bolo de caco”
que a minha mãe fazia.
Era o cheiro do leite cortado
e em doce transformado.
Era a rede no terraço
e o jogo de bola na memória.
Era o pulo do gato fazendo estória.
Era o canto do sapo e da jia
que ali surgia feito magia.
Era o escuro da noite
nas conversas, nas caçadas, nas pescarias,
nos becos das padarias e nos momentos de orgias.
Era o tudo de tudo
que hoje vejo
o que antes não sabia.
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